Notícias

 

Relatório Desenvolvimento Humano 2013

A "Ascenção do Sul" altera o equilíbrio de poderes mundial, segundo Relatório de Desenvolvimento Humano 2013

 

A redução da pobreza e a expansão da classe média em massa são o fruto dos consideráveis progressos do desenvolvimento em África, na Ásia e na América Latina

 

Cidade do México, 14 Março2013 - A ascensão do Sul reconfigura radicalmente o mundo do século XXI. As nações em desenvolvimento assumem a liderança do crescimento económico, retiram centenas de milhões de pessoas da pobreza e levam milhares de milhões de outras a integrar uma nova classe média mundial, refere o Relatório do Desenvolvimento Humano de 2013 do Programa das Nações Unidas Desenvolvimento (PNUD).

“A ascensão do Sul tem decorrido a uma velocidade e escala sem precedentes,”  segundo o Relatório de 2013. “Nunca, na História, as condições de vida e as perspetivas de futuro de tantos indivíduos mudaram de forma tão considerável e tão rapidamente.”

Este fenómeno vai muito além dos chamados BRIC, países de rendimento médio frequentemente representados pelo Brasil, Rússia, Índia e China, salienta o Relatório de 2013.

O Relatório torna claro que mais de 40 países em desenvolvimento registaram ao longo das últimas décadas progressos mais significativos em matéria de desenvolvimento humano do que seria de prever. Estas conquistas, refere, são em grande parte imputáveis a um investimento sustentado na educação, nos cuidados de saúde e nos programas sociais, bem como a um relacionamento mais aberto com um mundo cada vez mais interligado.

De acordo com o Relatório, este progresso histórico abre oportunidades a novas formas de colaboração entre o Sul e o Norte, que visam a promoção do desenvolvimento humano e a resposta a desafios comuns, como as alterações climáticas. Os Países de todo o hemisfério Sul alargam as suas relações comerciais, tecnológicas e políticas com o Norte, e o Norte olha hoje para o Sul em busca de novas parcerias que possam estimular o crescimento e o desenvolvimento mundiais.

O Relatório do Desenvolvimento Humano de 2013 – A Ascensão do Sul: Progresso Humano num Mundo Diversificado – foi apresentado hoje, na Cidade do México, pela Administradora do PNUD, Helen Clark, e o Presidente do México, Enrique Peña Nieto.

“O Relatório de 2013 constitui um contributo significativo para a reflexão sobre o desenvolvimento, descrevendo os fatores impulsionadores específicos da transformação do desenvolvimento e sugerindo prioridades políticas futuras, que poderão ajudar a sustentar esta dinâmica,” afirma Helen Clark no prefácio do Relatório.

Por seu turno, segundo o Relatório, este progresso histórico gera oportunidades para novas parcerias entre o Sul e o Norte — ou, respetivamente, os países em desenvolvimento e os países desenvolvidos — que permitem fazer face a desafios comuns, como as alterações climáticas, abrindo igualmente caminho a novas formas de cooperação com vista a acelerar o progresso do desenvolvimento humano também noutras regiões do mundo.

“Pela primeira vez, em muito séculos, o Sul, no seu conjunto, é o motor do crescimento económico global e das mudanças societais,” adianta o Relatório, que proporciona uma visão circunstanciada deste mundo em rápida mudança. Por exemplo:

- A China e a Índia duplicaram o seu produto per capita em menos de 20 anos — um ritmo duas vezes mais rápido do que o verificado durante a Revolução Industrial na Europa e na América do Norte. “A Revolução Industrial foi vivida, provavelmente, por uma centena de milhões de pessoas, mas o fenómeno a que hoje assistimos é protagonizado por milhões de milhões de pessoas,” afirma Khalid Malik, o autor principal do Relatório de 2013.

- Até 2020, segundo as projeções do Relatório, o produto combinado das três principais economias do Sul — China, Índia e Brasil — ultrapassará o produto agregado dos Estados Unidos, Alemanha, Reino Unido, França, Itália e Canadá.

- Com a melhoria dos padrões de vida em grande parte do Sul, a percentagem de pessoas em situação de pobreza extrema de rendimento caiu de 43 por cento em 1990 para 22 por cento em 2008, incluindo mais de 500 milhões de pessoas que, só na China, foram resgatadas da pobreza. Consequentemente, o mundo atingiu já a principal meta em matéria de erradicação da pobreza fixada nos Objetivos de Desenvolvimento do Milénio, a saber, reduzir para metade a percentagem de pessoas que vivem com menos de 1,25 dólares por dia entre 1990 e 2015.

- Os países em desenvolvimento duplicaram praticamente a respetiva quota-parte no comércio mundial de mercadorias, passando de 25 por cento para 47 por cento entre 1980 e 2010, regista o Relatório. O comércio no seio do Sul foi o maior motor dessa expansão, aumentando de menos de 10 por cento para mais de 25 por cento do total do comércio mundial nos últimos 30 anos, enquanto o comércio entre os países desenvolvidos decresceu de 46 por cento para menos de 30 por cento. As relações comerciais entre os países do Sul ultrapassarão as existentes entre as nações desenvolvidas, segundo as projeções do Relatório. Na maioria dos países em desenvolvimento regista-se uma correlação entre a abertura crescente ao comércio e o progresso no desenvolvimento humano.

- O Sul está cada vez mais interdependente e interconectado. Os telemóveis com ligação à Internet são cada vez mais comuns entre a maioria das famílias na Ásia e na América Latina, bem como na maior parte de África – sendo que a maioria desses smart phones são produzidos por empresas sedeadas no Sul. O Brasil, a China, a Índia, a Indonésia e o México possuem hoje um tráfego diário mais elevado nos media sociais do que qualquer outro país, à exceção dos Estados Unidos. As crescentes interligações globais do Sul são virtuais mas também pessoais: a migração entre os países em desenvolvimento ultrapassou recentemente a migração líquida do Sul para o Norte.

- O mundo assiste a um “reequilíbrio global” sem precedentes. A ascensão do Sul inverte a enorme mudança que permitiu à Europa e à América do Norte ofuscar o resto do mundo, começando com a revolução industrial, passando pela era colonial e culminando com as duas Guerras Mundiais no século XX. Atualmente, uma nova mudança tectónica lançou os países em desenvolvimento numa curva ascendente. O Relatório prevê que a chamada “Ascensão do Sul” prossiga e até acelere à medida que se avança pelo século XXI.

- As instituições mundiais ainda não conseguiram acompanhar o passo desta mudança histórica. A China, segunda maior economia mundial e detentora das maiores reservas cambiais do mundo, possui apenas uma quota de 3,3 porcento no Banco Mundial, menos do que os 4,3 por cento de França. A Índia, que em breve ultrapassará a China como o país mais populoso do mundo, não detém um assento permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas e o continente africano, com mil milhões de habitantes e 54 nações soberanas, encontra-se sub-representado em praticamente todas as instituições internacionais.

 

Liderança Governamental, Compromisso Global

O Relatório de 2013 começa por identificar mais de 40 países em desenvolvimento que registam progressos no desenvolvimento humano que suplantaram de forma significativa os padrões mundiais das últimas décadas. Analisa, em seguida e de forma mais circunstanciada, 18 desses países, desde os países bem-sucedidos de maior dimensão — começando pela China — até aos países bem-sucedidos de menor dimensão do Sul, com o Chile, o Gana e a Tailândia.

Embora estes países difiram consideravelmente nas suas Histórias, sistemas políticos, perfis económicos e prioridades de desenvolvimento, partilham algumas características essenciais. Na sua maioria trata-se de Estados “orientados para o desenvolvimento” que procuraram retirar vantagens estratégicas das oportunidades do comércio mundial. Investiram também fortemente no capital humano, através de programas de saúde e educação e de outros serviços sociais essenciais. “Mais do que assegurar uma correta fixação dos preços, um Estado orientado para o desenvolvimento deve definir corretamente as suas prioridades políticas,” de acordo com o Relatório. “Estas devem ser centradas nas pessoas, promovendo novas oportunidades e, em simultâneo, protegendo-as contra riscos adversos.”

O Relatório defende que a prossecução de políticas ambiciosas e bem concebidas pode sustentar este progresso do desenvolvimento humano nas próximas décadas e estender o seu alcance a um maior número de países em desenvolvimento. Adverte igualmente para o facto de a aplicação de medidas de austeridade míopes, o malogro na resposta às desigualdades persistentes e a falta de oportunidades para uma participação cívica válida poderem ameaçar este progresso, caso os líderes não tomem medidas corretivas corajosas.

Várias das principais nações do Sul criam hoje novos paradigmas para o progresso do desenvolvimento humano e a redução as desigualdades, através de políticas sociais inovadoras que são cada mais estudadas e seguidas em todo o mundo. De acordo com o Relatório, os programas pioneiros de transferência condicionada de rendimentos no Brasil, na Índia e no México ajudaram a estreitar as acentuadas diferenças de rendimento e a melhorar a saúde e a educação das comunidades pobres.

O Presidente da Câmara de Nova Iorque, Michael Bloomberg, que se deslocou ao México para conhecer em primeira mão o programa Oportunidades, explica, numa contribuição para o Relatório, os motivos que levaram a sua cidade a olhar para a América Latina aquando da conceção das suas próprias iniciativas de luta contra a pobreza. “Ninguém detém o monopólio das boas ideias,” afirma.

O Relatório conta ainda com contributos de Amartya Sen, galardoado com o Prémio Novel, do Presidente da Agência de Cooperação Internacional do Japão, Akihiko Tanaka, e do Ministro do Desenvolvimento da Turquia, Cevdet Yılmaz, entre outros.

Enfrentar Desafios, Manter a Dinâmica

O Sul enfrenta desafios de longo prazo, partilhados pelos países industrializados do Norte, incluindo o envelhecimento da população, pressões ambientais, desigualdades sociais, a desadequação entre a preparação dada pela instrução e as oportunidades de emprego, bem como a necessidade de uma participação cívica válida, entre outros. Estes desafios exigem simultaneamente soluções nacionais e globais caso se pretenda que os países em desenvolvimento mantenham a sua dinâmica em matéria de desenvolvimento humano.

O Relatório alerta para o facto de a inação ao nível ambiental, especialmente no que se refere às alterações climáticas, poder ter como preço travar ou inverter os progressos conseguidos no desenvolvimento humano nos mais pobres países e comunidades do mundo. Refere que o número de pessoas em situação de pobreza extrema poderá chegar a atingir os três mil milhões de pessoas até 2050 caso as catástrofes ambientais não sejam evitadas por meio de uma ação coordenada a nível mundial.

Nos países em desenvolvimento mais avançados, como os do Norte, o envelhecimento das populações exerce uma pressão crescente sobre a população ativa, salienta o Relatório. No entanto, adianta ainda que algumas das regiões mais pobres poderão beneficiar de um “dividendo demográfico” à medida que a percentagem da sua população em idade ativa aumenta, embora dependendo de medidas políticas adequadas que permitam usufruir desse dividendo.

As projeções do Relatório analisam o potencial impacto demográfico de políticas educativas nacionais ambiciosas semelhantes às levadas a cabo nas últimas décadas na República da Coreia. As previsões sugerem que um progresso educativo mais rápido também reduz substancialmente a mortalidade infantil, resultado direto da melhoria das oportunidades de educação contínua das jovens e dos bem documentados benefícios para os filhos de terem uma mãe instruída. Na Índia, por exemplo, os progressos acelerados na educação, à semelhança do que aconteceu na República da Coreia, poderão reduzir até praticamente metade a mortalidade infantil nas gerações futuras.

Proporcionar instrução às mulheres ao longo da sua vida adulta é o equivalente mais próximo de uma fórmula “infalível” para acelerar o desenvolvimento humano, como o demonstra a investigação efetuada com vista ao Relatório.

A pobreza grave continua a ser um problema considerável em grande parte do mundo em desenvolvimento, salienta o Relatório. Estima-se que 1,57 mil milhões de pessoas, ou seja, mais de 30 por cento da população dos 104 países estudados no Relatório, vivem em situação de pobreza “multidimensional”, incluindo 612 milhões de pessoas na Índia.

O Relatório alerta para o facto de a ausência de resposta por parte das estruturas políticas poder despoletar insurreições populares, especialmente se as oportunidades económicas não acompanharem o ritmo do progresso educativo, como aconteceu nos países da região dos Estados Árabes onde eclodiu a revolta em 2011. Estas tensões sociais são igualmente sentidas com grande acuidade em muitos dos países em desenvolvimento, refere o Relatório, onde as políticas de austeridade e o declínio do crescimento impõem dificuldades a milhões de pessoas.

“Existe um “Sul” no Norte e um “Norte” no Sul,” afirma o Relatório.

Novos Recursos, Novas Oportunidades, Novas Instituições

O relatório defende que existem, no próprio Sul, simultaneamente, os conhecimentos e os recursos necessários para poder tornar-se um motor mais poderoso no desenvolvimento global. Os países em desenvolvimento detêm hoje dois terços de todas as reservas mundiais de divisas estrangeiras, no valor de 10,2 biliões de dólares, incluindo mais de 3 biliões de dólares só na China e cerca de três quartos dos 4,3 biliões de dólares em ativos controlados por fundos soberanos em todo o mundo. Mesmo uma pequena parte dessas grandes somas poderia ter um impacto rápido mensurável na pobreza mundial e no desenvolvimento humano, refere o Relatório.

O Relatório de 2013 adianta que a ascensão do Sul desafia hoje as instituições mundiais existentes a mudar e revelar novos rumos que permitam a países e regiões trabalhar em conjunto para enfrentar desafios comuns.

À medida que as instituições internacionais mais antigas resistem à adaptação, surgem novos mecanismos, como a sobreposição de redes de cooperação a nível nacional e continental, incluindo acordos comerciais regionais, agrupamentos de segurança, bancos de desenvolvimento e acordos bilaterais.

O Sul carece de uma maior representação na governação global, o que pressupõe igualmente a assunção de maiores responsabilidades, afirma o relatório. As reformas do sistema mundial tardam há muito, e o Relatório insta a um “pluralismo mais coerente” na governação internacional impulsionado a nível nacional por uma “soberania responsável”, ou ao reconhecimento de que, num mundo interligado, as decisões de política nacional afetam os países vizinhos e, frequentemente, o planeta no seu todo.

O relatório exorta à convocação de uma nova “Comissão para o Sul” onde os países em desenvolvimento possam assumir a liderança, sugerindo novas abordagens construtivas a uma governação global eficaz.

A ascensão do Sul e o seu potencial de aceleração do progresso a favor das gerações futuras deverão ser vistos como benéficos para todos os países e regiões, à medida que os padrões de vida melhoram e que o mundo, no seu conjunto, se torna profundamente mais interdependente, sublinha o Relatório.

“O Sul precisa do Norte” refere o Relatório, “mas cada vez mais o Norte precisa do Sul.”

* * *
ACERCA DO IDH: O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) foi utilizado pela primeira vez no primeiro Relatório de Desenvolvimento Humano, em 1990, como uma medida composta do desenvolvimento que veio pôr em causa as avaliações puramente económicas do progresso nacional. O IDH utilizado no Relatório de 2013 abrange 187 países e territórios. As limitações de dados impediram a estimativa do IDH relativamente a oito países: Ilhas Marshall, Mónaco, Nauru, República Popular Democrática da Coreia, São Marino, Somália, Sudão do Sul e Tuvalu. Os valores e classificações do IDH, tal como apresentados na Tabela 1 do Anexo Estatístico do Relatório, são calculados recorrendo aos mais recentes dados internacionalmente comparáveis no que respeita à saúde, educação e rendimento. Os anteriores valores e classificações do IDH são recalculados retroativamente usando os mesmos conjuntos de dados atualizados e as metodologias atuais, tal como apresentados na Tabela 2 do Anexo Estatístico. Os valores e classificações do IDH constantes do Relatório do Desenvolvimento Humano de 2013 não podem ser comparados diretamente aos valores e classificações do IDH publicados em anteriores Relatórios de Desenvolvimento Humano.
* * *
ACERCA DO PRESENTE RELATÓRIO: O Relatório do Desenvolvimento Humano é uma publicação independente, em termos editoriais, do Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas. Para descarregar gratuitamente o Relatório do Desenvolvimento Humano de 2013, em 10 línguas, além de materiais de referência suplementares sobre os índices utilizados e as implicações regionais específicas, visite: http://hdr.undp.org.
O PNUD estabelece parcerias com indivíduos a todos os níveis da sociedade com vista a ajudar a construir nações que possam fazer face à crise e promover e sustentar o tipo de crescimento que melhora a qualidade de vida de todos. No terreno, em 177 países e territórios, oferecemos uma perspetiva global e uma visão local que contribua para capacitar as pessoas e construir nações resilientes.

Relatório Desenvolvimento Humano 2013 - português

HDR 2013 Resumo - português

HDR-Africa

Share |