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"Salvando o nosso barco: uma resposta global aos refugiados e migrantes"

Por Ban Ki-moon

Nações Unidas, 19 de Setembro de 2016 - Possivelmente nenhuma outra questão da agenda global é mais suscetível à manipulação por parte dos demagogos do que a dos refugiados e migrantes. “Nós” contra “eles” é um unificador irresponsável e atemporal, usado ao longo da história para obscurecer nossa humanidade comum por aqueles com interesses perigosamente egoístas.

A diferença agora é que, mais do que nunca, as pessoas estão em movimento, em uma época em que narrativas se espalham com velocidade viral e vemos uma crescente xenofobia – muitas vezes irrompendo em violência.

A Cúpula da ONU para Refugiados e Migrantes, realizada nesta segunda-feira (19) em Nova York, representa um avanço em um ponto de ruptura. Com tantas vozes estridentes dominando o debate, governos de todo o mundo estão respondendo em tons balanceados que podem produzir resultados reais, se as promessas forem cumpridas.

A Cúpula marca a primeira reunião de líderes para discutir os refugiados e migrantes. Adotará um acordo histórico de consenso – a Declaração de Nova York –, que define uma abordagem pragmática e baseada em princípios para enfrentar os desafios de pessoas em movimento.

Há 244 milhões de migrantes no mundo; mais de 65 milhões de pessoas estão deslocadas à força. Metade delas crianças.

Refugiados correndo por suas vidas enfrentam também graves perigos em sua jornada por segurança. Quando chegam, muitos sofrem discriminação e até mesmo detenção. As vias legais são escassas, enquanto contrabandistas sem escrúpulos se aproveitam, cobrando taxas exorbitantes por uma chance arriscada de escapar.

As guerras se tornaram mais duradouras e os refugiados estão encontrando dificuldades para voltar para casa – o tempo de deslocamento se estende, em alguns casos, por gerações.

Ao contrário das impressões dominantes, a grande maioria dos refugiados não está em países ricos; 86% estão em países em desenvolvimento. E os países mais pobres que acolhem refugiados não recebem ajuda suficiente. No ano passado, apelos humanitários das Nações Unidas receberam pouco mais de metade dos recursos solicitados.

Opções de reassentamento também estão muito abaixo do esperado. Quase um milhão de pessoas precisavam de reassentamento em 2015, mas apenas pouco mais de 100 mil conseguiram.

Os desafios são enormes – mas não devemos esquecer os benefícios. Com a abordagem certa, refugiados e migrantes podem trazer benefícios para ambas as sociedades, de recepção e de origem.

É central, neste processo, a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável – nosso plano global para a paz e a prosperidade em um planeta saudável. Estamos igualmente promovendo a prevenção e resolução de conflitos – bem como a paz sustentável, uma vez que as armas se calam.

A Cúpula contará com depoimentos de pessoas diretamente afetadas. Estou especialmente ansioso para encontrar novamente uma extraordinária jovem que encontrei nos Jogos Olímpicos no Rio. Yusra Mardini é síria, mas competiu na nova equipe de refugiados estabelecida para os atletas que, como outros milhões, foram forçados a sair de suas terras natais.

Antes de nadar em provas, Yusra foi posta à prova para salvar vidas.

No ano passado, ela deixou a Síria em um barco superlotado. Quando o motor parou, ela e sua irmã, junto a outros do grupo, mergulharam no Mar Egeu e, por longas três horas, empurraram o barco até a costa. Chegaram exaustas – mas tinham provado o poder da solidariedade humana para nos levar à segurança.

A humanidade está junta em um barco. Promover o medo, culpar o “outro” ou tornar as minorias bodes expiatórios apenas aumentará os perigos para todos.

Líderes sábios entendem que devemos, em vez de nos esforçar para salvar todos, otimizar as contribuições de cada um, orientando nosso barco comum para nosso destino compartilhado: um futuro de oportunidades e dignidade para todos.

 

Ban Ki-moon é o secretário-geral da Organização das Nações Unidas.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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